quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Papa reúne movimentos e sindicatos no Vaticano para debater desafios do trabalho



O Papa Francisco reúne esta quinta e sexta-feira no Vaticano um conjunto de dirigentes de organizações internacionais e nacionais ligadas ao mundo sindical e do trabalho, entre as quais a portuguesa Fátima Almeida, co-presidente do Movimento Mundial de Trabalhadores Cristãos (MMTC)
A iniciativa, que tem contornos inéditos, é do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral,  liderado pelo Cardeal Peter Turkson,  subordinado ao lema «Da Populorum progressio à Laudato si´: O trabalho e o movimento dos trabalhadores no centro do desenvolvimento humano integral, sustentável e solidário. Por que é que o mundo do trabalho continua a ser a chave do desenvolvimento neste mundo global?».

No cerne da conferência estará, segundo um comunicado da Sala de Imprensa do Vaticano, "o patrimonio da Doutrina social da Igreja sobre o trabalho e as perspectivas que ela abre; a análise das realidades sociais emergentes; a recuperação e apresentação de experiências positivas; e as propostas de iniciativas conjuntas a favor da construção de uma sociedade que coloque a pessoa e sua dignidade no centro da agenda social, das políticas públicas e de um desenvolvimento humano".
Estão previstas na conferência intervenções de representantes dos principais sindicatos italianos, da FGTB belga e da Conferência dos Sindicatos Europeus; da presidente do Conselho Consultivo Sindical da organização dos Estados Americanos); de Riccardo Petrella, professor de economia política da Universidade Católica de Lovaina, do presidente da CUT, Brasil; e do presidente da RWDS, dos  Unidos. Participam, além de delegações de mais de 40 países, representantes dos principais movimentos sindicais regionais e internacionais, especialistas em ciências sociais, representantes de movimentos de trabalhadores cristãos, e as autoridades da Organização Internacional do Trabalho
Num comunicado emitido sobre este acontecimento, o Movimento Mundial dos Trabalhadores Cristãos (MMTC) observa que o papa Francisco interpela a «descobrir um novo diálogo sobre o modo como estamos a construir o futuro de nosso planeta», que tenha em conta as dimensões ambiental, económica, social, cultural e religiosa. «O mundo do trabalho é uma prioridade humana. Portanto, é uma prioridade cristã». Com este diálogo prioritário e urgente, pretende-se atender aos problemas e aos desafios do trabalho que, para a Igreja, «continua a ser a chave do desenvolvimento no mundo global».

O comunicado do MMTC frisa que o trabalho digno é “o fio condutor” das recentes visitas pastorais do Papa Francisco. “Foi-o ante diversas instituições e organizações  ou em suas diferentes mensagens. Foi-o, durante três anos consecutivos, mediante o diálogo mantido nos três encontros mundiais de movimentos populares, «um sinal de esperança» - segundo suas próprias palavras - para milhões de trabalhadoras e trabalhadores «descartados» que lutam pelos «direitos sagrados ao Teto, ao Trabalho e à Terra», ainda segundo aquele Movimento.

Informação complementar:
http://www.ihu.unisinos.br/573636-sindicalistas-do-mundo-no-vaticano-com-um-aceno-para-a-argentina

http://www.periodistadigital.com/religion/mundo/2017/11/17/el-papa-francisco-convoca-a-los-sindicatos-para-abordar-conjuntamente-los-desafios-del-trabajo-religion-iglesia-vaticano-hoac-ugt-ccoo-mmtc.shtml

http://www.periodistadigital.com/religion/solidaridad/2017/11/20/religion-iglesia-solidaridad-hoac-deplora-profunda-deshumanizacion-mundo-laboral-xxiii-jornadas-pastoral-obrera.shtml

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Lisboa: conferência sobre cinema e cristianismo






Mais de duas dezenas de comunicações. mesas-redondas e conferências de abertura (Catherine Wheatley) e de encerramento (José Tolentino Mendonça) ocupam os três dias da conferência sobre cristianismo e cinema, que decorre a partir de sexta-feira e durante todo o fim de semana em Lisboa.
A iniciativa é do Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa (integrado no projeto de investigação “Cinema e Mundo: Estudos sobre Espaço e Cinema”), Instituto de Filosofia da Nova da Universidade Nova de Lisboa, Centro de Estudos de Comunicação e Cultura e Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião. estes dois últimos da Universidade Católica Portuguesa. A língua de trabalho será o inglês, decorrendo uma parte do evento na Faculdade de Letras e outra na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.
A conferência, subordinada ao tema "Movimento como imobilidade", «visa examinar as ligações entre o cinema e o cristianismo», focando-se naqueles «aspetos estéticos que, embora não rejeitem representações cinematográficas de temas religiosos, dão primazia ao estilo cinematográfico e à experiência cinematográfica».
No encerramento do primeiro dia está prevista uma mesa redonda com as intervenções de Inês Gil, professora de Cinema da Universidade Lusófona e membro do Grupo de Cinema do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, Tiago Cavaco, pastor Batista, e Gerard Loughlin, da Universidade de Durham).
Antes, no início dos trabalhos, três conferências detêm-se na obra do cineasta russo Andrei Tarkovski (1931-1986), especialmente sobre cristianismo e fé, ícones e busca e redenção espiritual.
[Mais informação no site do S. N. Pastoral da Cultura, que foi a fonte desta notícia.]

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Modas e bordados: precisamos de um museu do traje eclesiástico?

Comentário


O cardeal Raymond Burke, no início do mês, em Fátima (foto reproduzida daqui)

Na edição de hoje do Jornal de Notícias, publiquei um texto que aqui se reproduz, acrescido de dois parágrafos, omitidos na versão do jornal, por razões de espaço:

No início do mês, houve vários desfiles de rendas e bordados de moda eclesiástica em Portugal: em Fátima, Mafra e Lisboa, o cardeal norte-americano Raymond Burke, defensor (e praticante) do rito tridentino da liturgia, celebrou várias vezes a eucaristia. Ou, como ele e outras pessoas preferem dizer (numa linguagem que pretende demarcar tudo o “sagrado” e o “profano”), a “santa missa”. Até aí, tudo certo.
O problema está no aparato em volta do rito que se seguia a cada celebração. Num filme que circula em várias páginas da internet (aqui, por exemplo), pode ver-se o cardeal Burke, no final da celebração da eucaristia na Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima. Durante nove minutos e meio, vemos uma sucessão de gestos de tirar e pôr, vestir e calçar: rendas, sotaina, batina, casula, sobrepeliz rendada, luvas, tricórnio... o mostruário de vestes é extenso, numa sessão que parece saída de um museu que se julgava encerrado em curiosidades históricas.
Teria a última ceia de Jesus sido esta passerelle? A acreditar na narrativa do evangelho segundo São João, não terá sido esse o caso, bem pelo contrário: “Enquanto celebravam a ceia, Jesus (...) levantou-se da mesa, tirou o manto, tomou uma toalha e atou-a à cintura. Depois deitou água na bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que atara à cintura. (...) Depois de lhes ter lavado os pés e de ter posto o manto, voltou a sentar-se à mesa e disse-lhes: ‘Compreendeis o que vos fiz? (...) Na verdade, dei-vos exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também. (...) Uma vez que sabeis isto, sereis felizes se o puserdes em prática.” (João 13, 3-17)
Quando se vai à missa, vai-se a um encontro “vivo, não a um museu”, disse o Papa Francisco, nem de propósito, na audiência da passada quarta-feira, dia 15. O que é dramático, e deveria motivar a reflexão, é que estes rituais e vestes atraem muita gente – e, também, muita gente nova. Tal como sucede em outros âmbitos sociais e culturais, vivemos hoje tempos em que o que fascina é o rito, a forma, o aparato, a aparência – quase sempre, como manifestações de poder ou do poder do dinheiro. Seja na televisão, nas praxes académicas, na hierarquização profissional, na política, o que conta é a forma e a ostentação e não o que se é, o que se pretende ou o que se pensa. Aliás, a dado momento do filme, parece estarmos a ver um desfile de praxe académica. Quase no final, uma menina posa para a fotografia, fazendo lembrar os concursos de televisão em que as crianças são usadas como extensões ou bonecos nas mãos dos adultos.

sábado, 18 de novembro de 2017

Da Mundial dos Pobres abre no Vaticano semana debruçada sobre as questões sociais

 ALBERTO PIZZOLI / AFP
O Papa Francisco junta este domingo alguns milhares de pessoas fragilizadas e necessitadas de apoio e almoçará no Vaticano com 1500 de entre eles. Esse gesto inscreve-se no Dia Mundial dos Pobres, criado por iniciativa deste Papa, e que tem por lema “Não amemos com palavras, mas com obras”, extraído da 1ª Carta de João.
Francisco celebrará a eucaristia não apenas com pessoas pobres de Roma e de Itália, mas também com delegações que foram de diversos países, acompanhadas por voluntários de organizações que habitualmente trabalham com elas. Depois do Angelus, segue-se o almoço: uma parceria feita com várias dezenas de restaurantes da cidade de Roma possibilitará que cada um receba 10 pessoas carentes, as quais poderão escolher qualquer prato do menu do dia. Uma série de instituições da capital italiana ligadas à Igreja Católica abrirão também as suas portas para acolher os convidados de honra neste dia.
Esta iniciativa, que se celebra um pouco por todo o mundo, contou com uma forte adesão de inúmeras dioceses e abre uma semana particularmente densa do ponto de vista da pastoral social. De facto, antecede uma iniciativa também inédita no Vaticano, um encontro internacional  de organizações sindicais, subordinada ao tema “Da Populorum Progressio à Laudato Si” (e sobre a qual voltaremos a escrever aqui).

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Museu da Bíblia abre ao público em Washington

      

Abre este fim de semana ao público nos Estados Unidos da América o Museu da Bíblia, um gigantesco empreendimento instalado em blocos restaurados e ampliados que albergaram um grande complexo de refrigeração e armazenagem, não longe do National Mall, em Washington.


As reportagens sobre este novo equipamento dão conta de uma grande preocupação pela qualidade, pela dimensão educativa, pela capacidade de recriar ambientes análogos aos dos acontecimentos bíblicos evocados no Museu.  Além disso, os seus responsáveis reivindicam a mais completa coleção de objetos e de textos relacionados com a Bíblia e o seu impacto ao longo do tempo e em diferentes culturas.

Este Museu resulta da dedicação e financiamento de uma multimilionária família evangélica e terá tido um custo próximo dos 500 milhões de dólares. O proselitismo dos fundadores bem como os processos de aquisição de alguns dos objetos do Museu estiveram na origem de processos judiciais e de polémicas públicas.

Informação complementar:
[Crédito da foto: Essdras M Suarez /The Washington Post]

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Formação de presbíteros: testes, homossexualidade, modelos e comunidade

O documento O Dom da Vocação Presbiteral, da Congregação para o Clero, começa a ser debatido na assembleia plenária da Conferência Episcopal Portuguesa, que a partir de hoje reúne em Fátima. Algumas notícias surgidas nos últimos dias destacaram a questão da homossexualidade e dos abusos (e dos respectivos testes psicológicos) como um dos temas do documento que, no entanto, trata muitas outras questões sobre a formação, integração comunitária e modelo de presbiterado.
Algumas dessas questões estiveram em debate esta manhã, no espaço de entrevista da Antena Um, que teve a participação de Rosa Novo, professora na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, e de mim próprio.
O debate pode ser ouvido aqui.

domingo, 12 de novembro de 2017

Os filhos dos padres

No Jornal de Notícias deste sábado, o padre Fernando Calado Rodrigues regressa ao registo de crónica semanal que já manteve em tempos. Sob o título “Os filhos dos padres”, escreve:

Nos primeiros séculos do cristianismo, embora se valorizasse a opção pelo celibato, ela não era impeditiva da ordenação. A comunidade gerava os seus líderes e escolhia os que poderiam presidir à eucaristia e perdoar os pecados. Um pouco como acontece hoje em algumas ordens monásticas, nas quais, de entre os seus membros, se escolhem os que possam assumir esse serviço aos irmãos, nunca entendido como uma promoção ou - o que é pior ainda - como o exercício de um poder vedado a outros, ou uma carreira.

A crónica pode ser lida na íntegra aqui.
Calado Rodrigues passará a escrever no JN todos os sábados, excepto o primeiro de cada mês.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Humanae Vitae, Amoris Laetitia e o "descongelamento" do Concílio


Entrevista de Luciano Moia ao bispo emérito de Ivrea, Itália, Luigi Bettazi, com quase 94 anos, considerado a última testemunha do Concílio.

Que relação existe entre a teologia da Humanae vitae e a expressada pelo Vaticano II?
 Esse era um dos temas que Paulo VI havia reservado para si. No Concílio, não foi possível falar de contracepção. Como se sabe, uma comissão se ocupou dessa questão. O papa ampliou a sua participação e, depois, assumiu a tese da minoria.

Por que essa escolha?
 Ele pensava que, talvez, deixando a possibilidade de discutir o tema no Concílio, surgiria uma linha que ele não compartilhava. No plano providencial, ele não considerava oportuno abrir modificações na teologia consolidada. Agora, 50 anos depois, pode ser que, ao contrário, chegou o momento de repensar a questão. Mas afirmar isso hoje não significa concluir que, na época, a decisão de Paulo VI não foi clara.

No entanto, foi atormentada. A própria escolha de abrir mais investigações depois do resultado da comissão não demonstra que o próprio papa sopesou longamente a questão?
Não podia ser diferente. Ele sabia que tanto a maioria dos Padres conciliares quanto da Comissão de Peritos pendia por um parecer mais nuançado em relação ao “não” que, depois, chegaria na Humanae vitae. Por isso, ele foi contestado tanto por muitos teólogos, quanto por muitas Conferências Episcopais.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Nos 500 anos da Reforma protestante. alguns textos


A propósito desta data tão relevante para a história das religiões e para as sociedades, a editora Wiley abriu o acesso a um conjunto de artigos de revistas científicas que edita, alusivos à efeméride e à Reforma em geral.
Os artigos estão todos em inglês e podem ser consultados AQUI.
Eis alguns dos títulos:

Putting the Protest Back into Protestant
Christine Helmer
The Ecumenical Review

Reformation Revisited: Women's Voices in the Reformation
Kirsi Stjerna
The Ecumenical Review

What Kind of Reformation?: The 500th Anniversary of the Reformation and Today
Konrad Raiser
The Ecumenical Review

The World Mission Conference 2018: An Approach from Germany
Christoph Anders
International Review of Mission

Renaissance Catholicism and Contemporary Liberalism: Western Ideology on the Eve of the Reformation
David A. Hughes
Journal of Religious Ethics

Christendom Versus Empire
Peter Milward
The Heythrop Journal

Martin Luther on Preaching Christ Present
Allen G. Jorgenson
International Journal of Systematic Theology

Early Modern Protestant Virtuosos and Scientists: Some Comments
Kaspar von Greyerz
Zygon: Journal of Religion and Science.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Sobre os ventos franciscanos que sopram do Vaticano


      A propósito da recente correção do Cardeal Sarah, feita pelo Papa Francisco, relativamente ao papel do Vaticano acerca das traduções dos textos litúrgicos:
      "Francisco não é fã de esclerose. A visão que ele tem de uma Igreja engajada, a acompanhar o povo, um hospital de campanha, sujando-se nas ruas, é o contrário da mentalidade de “prisioneiro do Vaticano” que predominou na segunda metade do século XIX e que ainda predomina entre todos aqueles católicos doutrinários que se preocupam mais com a contaminação do que com a evangelização, aqueles que, involuntariamente, matam a tradição porque querem que ela seja estática e imóvel – irreformável, como gostam de dizer –, quando uma tradição, que é viva, está sempre se alargando, adaptando-se, estendendo a mão de volta às suas fontes mais profundas para ultrapassar as incrustações culturais que impedem o crescimento saudável.
      Não devemos zombar destas incrustações culturais, tampouco deveriam elas ser abandonadas, pois representam as tentativas das gerações anteriores de viver a fé que tiveram, e uma fé que não gera cultura é uma fé morta. Mas a fé também morre quando confundimos estes antecedentes culturais com exemplos completamente adequados de inculturação para a nossa época e nossas culturas. Não honramos os que vieram antes de nós pondo os pingos nos nossos i’s e cruzando os nossos t’s de forma servil. Nós os honramos certificando-nos de que a nossa fé antiga, em nosso tempo, está gerando cultura também".
      Michael Sean Winters, in National Catholic Reporter, 25-10-2017, com tradução de Isaque Gomes Correa. Texto completo AQUI. [Imagem: quadro de Ellsworth Kelly]

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Uma compreensão dinâmica da tradição da Igreja: o caso da pena de morte


O Papa Francisco pronunciou em 11 de setembro último um discurso curto mas de grande alcance, pelo seu significado. Foi a propósito dos 25 anos do Catecismo da Igreja Católica. O texto pode ser lido em Português aqui: http://bit.ly/2zhaYHg. Entretanto, já esta semana, o historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos Estados Unidos, publicou um artigo de comentário a esse discurso no sítio de La Croix International, que publicamos a seguir, recorrendo à tradução feita por Moisés Sbardelotto no site noticioso do Instituto Humanitas da Unisinos, Brasil. Eis o texto:

"O legado teológico de Joseph Ratzinger pode ser significativo, mas, provavelmente, não do modo como os seus fãs neotradicionalistas podem pensar.
Um importante estudo de caso que sugere isso está ligado ao recente discurso que o Papa Francisco proferiu no 25º aniversário do Catecismo da Igreja Católica. O discurso é significativo no modo como confirma vários componentes teológicos chave desse pontificado e do atual momento do catolicismo.

domingo, 8 de outubro de 2017

José Maria Cabral Ferreira sj: comunicar com todo o afecto


In Memoriam (Porto, 10/02/1933 – Lisboa, 15/09/2017)




As últimas semanas ficaram marcadas pela partida de pessoas que se tinham tornado referências em diversos âmbitos e para diferentes gerações. Depois do bispo do Porto, D. António Franciscoe antes de D. Manuel Martinsprimeiro bispo de Setúbal, e de Jorge Listopadencenador e escritor, morreu, no dia 15 de Setembro, o padre José Maria Cabral Ferreira. Natural do Porto, onde viveu e trabalhou durante as últimas décadas, estava em Lisboa quando morreu, pois para ali tinha sido encaminhado para receber cuidados de saúde.
 Jesuíta há 65 anos, padre há 54 anos, sociólogo de formação e profissão, o padre José Maria era uma pessoa que marcava todos os que com ele se cruzavam. Um deles, companheiro na Ordem e amigo de muitos anos, foi o padre Vasco Pinto de Magalhães, que publicou esta semana, na página dos Jesuítas de Portugal, o testemunho que a seguir se reproduz (o título e subtítulos são aqui acrescentados ao texto).


Vida e morte do P. José Maria Cabral Ferreira sj
(texto do padre Vasco Pinto de Magalhães sj)

Falar do padre Zé Maria, na hora da sua morte?… Sinto um turbilhão de imagens e de conversas que se atropelam no meu espírito. Uma amizade espontânea e construída, sobretudo nestes últimos 30 anos, dezoito deles a viver na mesma comunidade jesuíta do Porto, não se resume facilmente. Uma das suas características era a de fazer e deixar amigos por todo o lado. Como se nada fosse! 
Posso partilhar algumas coisas que fizemos juntos e foram marcantes, recorrendo ao meu “Álbum de memórias”. Abro à sorte, aqui, por exemplo, estamos na Sicília. Percorremo-la, nesse verão, de uma ponta à outra, contemplativamente… Ele sempre se distraiu com as horas! Mas sempre havia onde ficar, pois em todo o lado (e isto também no resto da Itália) encontrava um casal amigo, um arquiteto seu conhecido, um padre de paróquia aonde, antes, teria vindo ajudar na Páscoa, etc. Agora, aqui, esta foto é no Centro Pedro Arrupe (Istituto di formazione politica), que ele tanto queria visitar em Palermo: conversando sobre os grandes desafios impostos pela Máfia e as questões sociais graves da região. Mas, no dia seguinte, sem horas marcadas, em Agrigento, no Vale dos Templos, mergulhámos num grande silêncio só interrompido quando, de repente, ele começava a recitar algum texto dos clássicos ou uma poesia que parecia responder a alguma observação minha sobre a paz ou a estética do lugar, mas ele ia muito mais além.
Torno a abrir o Álbum e, agora, estamos em Exercícios Espirituais, nada mais, nada menos do que no grande Mosteiro cisterciense de Santa Maria la Real de Oseira. Oito dias, bem inacianos, dando pontos de meditação um ao outro, e participando nas horas canónicas cantadas no coro dos monges. Largos passeios silenciosos; uma paragem debaixo de um grande castanheiro e lá vinha a sua reflexão a partir das saborosas bolachas que os monges fabricavam e nos ofereciam e dali nos levava o pensamento até S. Bento e à construção da Europa (em Ora et Labora), e daí saltava para o seu Douro vinhateiro ou para as pequenas aldeias de Trás-os-Montes onde tinha trabalhado e deixado grande parte da sua alma social. 

Aulas que marcaram gerações

O padre Zé Maria não era um sociólogo de cátedra. As suas aulas, quer na Faculdade de Arquitetura quer no Instituto de Serviço Social do Porto, marcaram fortemente várias gerações. Mas onde se sentia mesmo bem era no trabalho de campo, ou melhor, comunicando com as “gentes” de todo o tipo e com todo o afecto. O tempo e cuidado que dedicava à JARC, aos grupos que vinham das suas terras reunir com ele ao Porto, a alegria com que participava nas celebrações da Comunidade da Serra do Pilar e a admiração pelos seus amigos “padres operários”, a presença no Banco Alimentar do Porto, a importância que dava aos encontros e às pessoas ligadas ao Metanoia, à CNIS (Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade) de que foi um dos fundadores e, como ele próprio dizia, a sua “quase-obsessão” pelo “Bairro Português de Malaca” onde trabalhou, viveu e escreveu, mostram bem a sua inquietação pela justiça e pelos “esquecidos”, juntamente com seu sentido crítico e ao mesmo tempo apaixonado, fazem o seu retrato. 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Jorge Listopad (1921-2017): aproximar o mundo visível do invisível

In Memoriam

Texto de Júlio Martín da Fonseca

(foto: Listopad em viagem; direitos reservados)

No passado dia 1 de Outubro faleceu, com a idade de 95 anos, o escritor, professor e encenador Jorge Listopad. De origem checa, este “português nascido em Praga” foi uma referência na cultura e particularmente no teatro, ao longo dos últimos cinquenta anos.
Nas suas criações manifestava-se naturalmente o desejo de aproximar o mundo visível do invisível, de criar relações, fossem elas claras ou misteriosas, entre o mundo da natureza e o mundo da graça. Fazia-o através de um exercício vivencial e artístico de querer reler e religar um universo ferido e fragmentado, como parece acontecer com todos aqueles que procuram através do teatro e da vida, decifrar a linguagem de Deus, incarnada até nas coisas mais pequenas e aparentemente insignificantes, onde se mistura o trivial e o sublime.
Em 1983 encenou O Anúncio Feito a Maria, de Paul Claudel, no Teatro Nacional D. Maria II, com a participação, entre outros, de Manuela de Freitas, Eunice Muñoz e João Perry, tendo a colaboração do grupo de Teatro da Universidade Técnica, de Lisboa. O espectáculo teve como cenário natural o vizinho Palácio da Independência e esteve em cena durante o mês de Julho com sessões esgotadas.
   Entre outros trabalhos de Jorge Listopad onde se pôde sentir igualmente, com particular intensidade, esta profunda sensibilidade, podemos destacar o encontro com as obras de Calderón de la Barca, José Régio, António Patrício e Václav Havel. Em 1988, Segismundo na Torre de Belém segundo A Vida é Sonho de Calderón de la Barca, com o TUT – Teatro da Universidade Técnica, na Torre de Belém; em 1990, Cenas da Vida de Benilde segundo Benilde ou a Virgem Mãe, de José Régio, e Judas, de António Patrício, com o Grupo Teatro Hoje – Teatro da Graça; em 2000, O Príncipe Constante, de Calderón da la Barca, com a Companhia de Teatro de Almada, que esteve presente no Festival de Teatro de Cáceres e no Festival de Teatro Clássico de Almagro; e, em 2003, Audiência/Vernissage/Havel, de Václav Havel, no Teatro Nacional D. Maria II, com a presença do autor na estreia.
O velório de Jorge Listopad será na Capela Mortuária do Mosteiro dos Jerónimos, hoje, dia 4 de Outubro, das 18h às 22h30.
No dia 5 de Outubro, às 14h, haverá missa na Igreja dos Jerónimos, saindo o cortejo fúnebre, às 14h45, para o Cemitério dos Prazeres.
No dia 6 de Outubro, dia de São Venceslau, padroeiro do Estado checo, a Embaixada da República Checa em Portugal recorda o aniversário do nascimento do primeiro presidente checo Václav Havel e homenageia o seu amigo, o poeta Jorge Listopad, numa cerimónia a realizar às 17h30 no Espaço Václav Havel, no Jardim do Príncipe Real, em Lisboa.



(Um outro perfil de Jorge Listopad pode também ser lido aqui)


quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A propósito de uma “correcção”

Texto de João Duque
professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (Braga)


João Paulo II "repreendendo" o padre Ernesto Cardenal, na Nicarágua, em 1983; 
invertem-se agora as posições e é o Papa quem é repreendido? (foto reproduzida daqui)

Superou-se a ideia quase fixa de que quem defende o papa é “conservador” e quem o critica é “progressista”.

Foi tornada pública, nos dias passados, uma autodenominada “correcção” à “Amoris Laetitia” do Papa Francisco, assinada por um grupo de teólogos. Trata-se de um texto complexo, que não permite um comentário breve, muito menos em contexto jornalístico. Da minha parte, apenas extrairei desse texto – independentemente do contexto e mesmo das personalidades que o assinam, pois não me cabe fazer juízos – alguns elementos que me parecem merecer reflexão e que, nesse sentido, não deixam de ser “positivos”.
Já agora, antes de entrar nesses elementos, devo manifestar estranheza pelo próprio título: chamar pomposamente à apresentação de um posição diferente – mesmo contrária – à do Sumo Pontífice uma “correção” pressupõe que quem corrige é detentor de uma verdade absoluta e final. É claro que é isso que pretende precisamente esse texto; mas também é claro que aí reside um dos seus maiores problemas. Não quero, contudo, fixar-me nessa questão, pois levaria demasiado longe – e provocaria, certamente, muitas correcções...
(o texto pode continuar a ser lido aqui)