sábado, 16 de setembro de 2017

No tenim por (Não temos medo) - Notas depois do atentado de Barcelona (e de Londres)


Uma agente da polícia a socorrer uma das vítimas do atentado de ontem.
(foto Stefan Rousseau/AP, reproduzida daqui)

O presidente da Conferência Episcopal de Inglaterra e Gales, cardeal Vincent Nichols, manifestou a sua consternação pelo atentado desta sexta-feira, 15 de Setembro, na estação de metro de Parsons Green, na capital inglesa. O arcebispo de Westminster disse que a reacção dos cidadãos na ajuda aos feridos mostrou “o bom que há na humanidade, perante alguns poucos que querem dividir a nossa sociedade”. E acrescentou que “todos devemos estar alerta, mantendo a calma”.
Sabemos que a resposta das lideranças políticas tem oscilado entre o aumento da segurança e as operações militares, entre a retórica oca de que não serão dadas tréguas ao terrorismo e a venda de armas e o apoio político a governantes que mantêm uma forte relação com grupos terroristas. E que essas respostas têm sido inconsequentes – e, pelo contrário, têm continuado os atentados, tem aumentado a sensação de insegurança e tem-se degradado a situação de vários países atingidos por guerras e conflitos internos (Síria, Paquistão, Iraque...)
Qual deve ser, então, a resposta dos cidadãos? O que se passou em Barcelona, em Agosto, mereceu também uma resposta de afirmação unívoca de socorro às vítimas (entre as quais duas portuguesas, avó e neta) e de afirmação de que a vida tem de continuar, sem medo.
Essa é a perspectiva deste texto, que a seguir se publica, escrito por monsenhor Manuel Nin i Güell, exarca dos católicos gregos de rito bizantino, monge de Montserrat. 
A tradução é de Lucy Wainewright.

No tenim por – Não temos medo

Quando éramos crianças e íamos em família a Barcelona para tratar de diversos assuntos, quase sempre viajávamos de comboio e aquela visita à capital  acabava sempre, antes de apanhar o comboio de volta, com uma meia hora de passeio ao longo das Ramblas, onde víamos uma infinidade de tendas com animais mais ou menos exóticos e com plantas, especialmente catos de grande beleza. Era uma vitória conseguir arrancar da generosidade de pais ou avós a decisão de comprar algum animal – um pássaro ou um peixe – ou alguns catos, quanto mais cheio de espinhos melhor, para levar para casa.
Nunca imaginei que aquele lugar de descontração, de tranquilidade, de vida famíliar, pudesse, alguma vez, tornar-se lugar de terror e morte. Qualquer atentado, qualquer forma de terrorismo gera em nós – não digo suscita, mas gera, porque é algo que surge, que vem de dentro – gera, digo, repugnância, tristeza e medo. E estas duas últimas reações podem constituir a verdadeira vitória do terrorismo e dos terroristas: a tristeza e, acima de tudo, o medo. O medo de que possam voltar de novo, que nos possa acontecer um dia a nós, em qualquer lugar e nos lugares mais variados, até mesmo nos locais de lazer e tranquilidade.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Fátima, 100 anos, de Maio a Outubro (5) – A oscilação política e as guerras de Fátima à volta da paz

Depois de Maio, podemos voltar a parte do muito que se publicou sobre Fátima e que ajudará a sistematizar informação e elementos para vários debates sobre o fenómeno, que importa agora aprofundar.
Hoje, dia da peregrinação aniversária de Setembro, trago aqui dois textos sobre a relação de Fátima com a política, ambos publicados no Expresso: um, publicado a 6 de Maio na Revista E, sobre a oscilação da relação com a política, ao longo do primeiro século de Fátima. Outro, publicado dia 12 de Maio no Expresso Diário, sobre a questão específica da guerra e da paz.
Este é o quinto trabalho da série, que terminará a 13 de Outubro. Os textos já publicados podem ser lidos nestas ligações:


A oscilação política de Fátima – ou o poder da fé
(Foto à direita, em baixo: António Pedro Ferreira, reproduzida daqui)

Neste século, Fátima foi terreno de conflito entre o catolicismo tradicional e a República, afirmação do desejo de paz contra a participação de Portugal na guerra, “escola” do nacionalismo católico durante o Estado Novo e da mensagem anticomunista, lugar de divulgação de mensagens contra a guerra colonial, centro do catolicismo português depois da instauração da democracia.

Cem anos e muitas polémicas depois, o momento presente de Fátima não revela nenhum “motivo de atrito” nem de “utilizações abusivas entre o Estado e a Igreja”, ao contrário do que aconteceu durante este primeiro século de Fátima. A conclusão, expressa pelo historiador José Miguel Sardica na “Enciclopédia de Fátima”, traduz a realidade de ter sido o regime democrático a estabilizar a relação do Estado com a Igreja, no que também a Fátima diz respeito.
Ao longo destes 100 anos, a história do fenómeno faz-se também a partir do que foi a sua relação com o Estado e a política. E pode concluir-se pela oscilação, pois Fátima foi sendo várias Fátimas: o relato ingénuo dos primeiros três anos, acerca das visões das três crianças (e sobretudo de Lúcia) em 1917, coincidindo com a primeira adesão popular e as críticas severas dos republicanos; o reconhecimento do fenómeno como “autêntico” por parte da diocese de Leiria; as novas narrativas que Lúcia acrescenta, a partir da década de 1930 e até 1945; a relação de respeito e aproveitamento mútuo entre Fátima e o Estado Novo; a oposição surda das populações à guerra colonial e as ambiguidades de um santuário que falava de paz mas se silenciava perante um regime que coartava a liberdade e conduzia a guerra (ver texto “As guerras à volta da paz”); o esvaziamento do discurso anticomunista após a queda do Muro de Berlim...
(O texto pode continuar a ser lido aqui)



As guerras de Fátima à volta da paz

Panfletos contra a guerra colonial distribuídos em Fátima, uma carta entregue discretamente a um ex-secretário do Papa João XXIII, padres angolanos a pensar “ocupar” a nunciatura do Vaticano em Lisboa durante a visita de Paulo VI a Fátima... A questão da guerra e da paz esteve muito presente em Fátima desde o início, quando as crianças disseram que a visão lhes anunciara o fim da Grande Guerra.

A única vez que Joana Lopes foi a Fátima foi em 1967, na altura da visita do Papa Paulo VI. O objectivo era ela e José Manuel Galvão Teles, membros da então Junta Central da Acção Católica (um organismo coordenador desses movimentos de leigos católicos) entregarem ao antigo secretário do Papa João XXIII, Loris Capovilla, uma carta dirigida a Paulo VI. Nela se descrevia a situação política em Portugal, marcada pela guerra colonial e pela falta de liberdade.
“O objectivo foi conseguido”, recorda agora. Pouco tempo depois, conforme combinado em Fátima, o cartão recebido do Vaticano a dizer “Missão cumprida”, assinalava isso mesmo. Mas já alguns dias antes da visita do Papa, como recorda no livro Entre as Brumas da Memória (ed. Âmbar), Joana Lopes tinha ido, com Nuno Teotónio Pereira e o mesmo Galvão Teles, à nunciatura do Vaticano, falar com monsenhor Maximilien de Furstenberg, então representante do Vaticano em Lisboa. “Era ainda uma tentativa de que o Papa não viesse” ou, pelo menos, que tivesse em conta a situação política do país, explica, recordando o gesto.

As palavras e os gestos de D. António Francisco


Velório do corpo de D. António Francisco na sé do Porto 
(foto diocese do Porto, reproduzida daqui)

O padre Lino Maia contava que, no primeiro Natal passado como bispo do Porto, em 2014, D. António Francisco dos Santos convidou uma pessoa sem-abrigo da cidade, para a sua mesa de Natal.
Por causa de atitudes como esta, não soam ocas as palavras de D. António quando prometia uma acção pastoral de proximidade junto das pessoas mais vulneráveis – pobres, desempregados, doentes, idosos – ou também para com comunidades onde o conflito com a Igreja institucional assumiam manifestações duras, como foi o caso de Canelas, mal chegou à diocese do Porto.
De tudo isso o então novo bispo do Porto falava em Julho de 2014, na entrevista que então deu a Manuel Vilas Boas, para a TSF, e que se pode escutar aqui.

No dia em que o país e os católicos se despedem do bispo do Porto (hoje, às 15h, na catedral da cidade), pode ler-se também esta evocação do eurodeputado Paulo Rangel.


segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Vai fazer-nos muita falta, D. António!

D. António Francisco dos Santos (1948-2017) – In memoriam



D. António Francisco em Fátima, em 2015 (foto António Marujo)

Era um homem, um padre e um bispo com uma visão rara, que colocava as pessoas, cada pessoa, no centro da acção da Igreja – e da sua própria. D. António Francisco dos Santos, padre da diocese de Lamego, onde nasceu, era bispo do Porto desde 2014. Tinha sido bispo de Aveiro entre 2006 e 2014 e bispo auxiliar de Braga de 2004 a 2006. Morreu esta manhã, na casa episcopal do Porto. Vai fazer-nos muita falta. Pelo seu carácter, pela sua proximidade com as pessoas, pela sua visão pastoral.
D. António Francisco completou 69 anos no passado dia 29 de Agosto. Acabara de estar em Fátima, sábado passado, presidindo à peregrinação diocesana ao santuário. Na sua homilia, disse que os cristãos devem ser capazes de “construir uma Igreja bela, como uma casa de família” e que seja capaz de atender sobretudo aos mais frágeis: “Não podemos viver distantes dos dramas humanos nem ficar insensíveis aos seus clamores e indiferentes aos seus sofrimentos”, declarou, convidando os diocesanos a “entrarem na vida concreta dos que sofrem” (a homilia pode ser lida aqui na íntegra). 
A sua visão e acção pastoral tinham uma perspectiva muito coincidente com a do Papa Francisco: centrada na misericórdia, na atenção a cada pessoa, na proximidade quotidiana com todos – clero, fiéis, não-crentes, na dedicação aos mais pobres e a quem mais sofre. Isso mesmo é recordado por várias pessoas, de diferentes âmbitos, no perfil que se pode ler no Público.
Nessa perspectiva, D. António Francisco apoiou com vigor intenso as muitas iniciativas pastorais de padres e leigos que, na diocese de Aveiro, faziam um caminho de busca de novas soluções para a integração eclesial dos divorciados que tinham voltado a casar, também na linha (mas já antes) do que o Papa Francisco tem proposto.
A propósito dessa realidade, e numa entrevista que lhe fiz, em 2015, para a revista espanhola Vida Nueva, dizia D. António: “Diante da Igreja e na Igreja todas as pessoas têm nome, rosto, alma e coração. Muitas vezes, um coração partido, a sofrer, dorido, por muitas desventuras! Mas a Igreja tem de saber acolher e fazer um caminho em comum nesse sentido.”
Este modo de actuar não perspectivava, no entanto, apenas uma atitude passiva ou a imposição de decisões, mesmo que abertas. Ele entendia que os interessados deveriam também participar no processo de reflexão: “Temos também de saber reflectir com eles, não apenas acolher. Importa saber ouvir e decidir com os casais divorciados recasados os caminhos de cada um no empenhamento concreto na vida da Igreja. Mesmo com aqueles que estejam em situações de ruptura ou de não aceitação das orientações da Igreja, sabemos que nunca podem ser marginalizados e que podem sempre encontrar a Igreja aberta.”
Quando tomou posse do lugar de bispo do Porto, apontou ainda o combate à pobreza como horizonte da acção da Igreja. Na mesma entrevista, justificava: “Temos áreas muito marcadas pela fragilidade, pela pobreza, pela injustiça, pelo desemprego. Somos muitos e, por isso, maior é também o número dos que sofrem. Mais atento tem de estar o bispo e mais presente tem de estar a Igreja, junto de todos, com iniciativas próprias que eu desejo que sejam criativas e ousadas. E não podemos esperar, como dizia o Papa, pois quando alguém sofre não pode esperar para o dia seguinte.” E acrescentava, no que era uma crítica severa a muitas das coisas que se fazem, não apenas na Igreja: “Temos de dar lugar aos pobres e não apenas esmola.” No sábado, em Fátima, a participação de 50 pessoas sem-abrigo na peregrinação diocesana foi uma forma de concretizar em gesto as ideias que D. António Francisco defendia (ver aqui a sua última entrevista, dada em Fátima à agência Ecclesia). 
D. António sofreu muito com a saída de Aveiro e a sua nomeação para o Porto. Em Aveiro, houve quem tentasse evitar a saída, como na altura se noticiou no RELIGIONLINENa entrevista já citada, esse processo levava-o a admitir que “as Igrejas locais deviam ser chamadas a intervir na nomeação dos seus bispos”. Num caso como o que acabara de viver, acrescentava que, na “mudança de diocese apenas é ouvida a diocese para onde vai o bispo e não aquela de onde sai”.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Em defesa da Amazónia e da Casa Comum

Bispos brasileiros condenam extinção de reserva amazónica, dias depois de o Papa Francisco e o Patriarca Bartolomeu terem publicado um documento conjunto assinalando o Dia de Oração pelo Cuidado da Criação.


O Patriarca Bartolomeu e o bispo católico Geraldo Majella Agnelo, durante a cerimónia 
da bênção das águas, que abriu o simpósio Religião, Ciência e Ambiente, 
em Manaus (Amazónia, Brasil), em Julho de 2006 (foto © RSE)

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou esta terça-feira, dia 5, uma nota em que manifesta um “veemente repúdio” pelos decretos que extinguem a Reserva Nacional de Cobre e seus Associados (Renca). A decisão governamental afronta a Constituição Federal, considera a presidência da CNBB, pelo facto de não consultar os povos indígenas.
Os bispos acrescentam que esta decisão evidencia a lógica de mercado que tem sido adoptada no Brasil, “em detrimento da vida, da dignidade da pessoa e do cuidado com a Casa Comum”. E exemplificam: “Políticas governamentais de incentivo às hidrelétricas, à mineração e ao agronegócio, com flexibilização de licenças ambientais, anulam os esforços em prol de sua preservação”, considera a CNBB.
A nota dos bispos em defesa da Amazónia, intitulada “Viver a vocação de guardiões da obra de Deus”, pode ser lida na íntegra aqui e pede a “revogação revogação integral dos decretos de extinção da Renca”.
Também a Rede Eclesial Pan-Amazónica (Repam), integrada no Conselho Episcopal Latino-Americano e do Caribe (Celam), que reúne todas as conferências episcopais da região, repudiou a decisão governamental brasileira. E, apesar de o Presidente Michel temer ter anunciado há dias a revisão de um dos decretos em causa – que abre uma reserva amazónica à exploração mineira – acabou por manter a extinção da Renca, que agora foi condenada pela CNBB.
Esta situação surge no contexto da celebração do terceiro Dia de Oração pelo Cuidado da Criação, assinalado no passado dia 1 de Setembro, pela primeira vez, com uma mensagem conjunta do Papa Francisco e do Patriarca Bartolomeu, de Constantinopla.
No documento, que pode ser lido aqui na íntegraFrancisco e Bartolomeu relacionam as trágicas consequências das mudanças climáticas com a situação das populações mais vulneráveis: “O ambiente humano e o ambiente natural estão a deteriorar-se conjuntamente, e esta deterioração do planeta pesa sobre as pessoas mais vulneráveis. O impacto das mudanças climáticas repercute-se, antes de mais nada, sobre aqueles que vivem pobremente em cada ângulo do globo. O dever que temos de usar responsavelmente dos bens da terra implica o reconhecimento e o respeito por cada pessoa e por todas as criaturas vivas. O apelo e o desafio urgentes a cuidar da criação constituem um convite a toda a humanidade para trabalhar por um desenvolvimento sustentável e integral.”

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Fátima, 100 anos, de Maio a Outubro (4) – Maria: factor de unidade ou perturbação no catolicismo e no diálogo ecuménico?

Depois de Maio, podemos voltar a parte do muito que se publicou sobre Fátima e que ajudará a sistematizar informação e elementos para vários debates sobre o fenómeno, que importa agora aprofundar.

Hoje, dia em que a liturgia católica assinala a Assunção de Nossa Senhora e a Igreja Ortodoxa festeja a Dormição de Maria, trago aqui dois textos sobre a figura da mãe de Jesus: um, publicado no Público de 7 de Maio (e que, por isso, tem uma referência final datada); o outro, um texto publicado no número de Maio/Junho da revista Bíblica. Em ambos, procuro apresentar alguns elementos sobre o modo como Maria é olhada e venerada e de que modo isso influencia ou não a fé de tantos crentes (incluindo o Papa Francisco, cuja relação com Nossa Senhora é também tratada no primeiro texto.

Este é o quarto trabalho desta série, que incluirá mais dois textos, nos dias 13 de Setembro e 13 de Outubro. Os textos já publicados podem ser lidos nestas ligações:



PAPA FRANCISCO: DEVOTO DE MARIA, MAS NÃO MARIANO

Maria é importante no cristianismo? E a que ponto? Há uma forte presença da mãe de Jesus na teologia, na vida dos crentes – e dos Papas. Mas o entendimento do seu lugar no dogma cristão tem sido objecto de debates e muitas polémicas. Aqui se recordam alguns desses episódios e se tenta perscrutar o entendimento do Papa Francisco sobre a figura da mãe de Jesus.



O Papa Francisco no Santuário de Fátima, a 12 de Maio último 
(foto reproduzida daqui)

Na primeira metade do século VIII, São João Damasceno, um dos mais importantes teólogos cristãos do primeiro milénio cristão, escrevia que “Maria é a primeira das novas criaturas”.
Com essa afirmação, queria destacar o papel da mãe de Jesus na configuração da fé cristã. Mãe de Cristo e irmã dos crentes, primeira seguidora e discípula do seu filho, protectora e advogada de quem a ela recorre, Maria de Nazaré pode ser também arquétipo da figura da mãe, da presença do feminino na antropologia e figuração da deusa-mãe. A sua personalidade é, desde o início do cristianismo, venerada em diferentes graus, a ponto de ter sido proclamada pelo Concílio de Éfeso, em 431, como Theotokos – literalmente, “portadora de Deus”, ou seja, mãe de Deus.
O catolicismo e o cristianismo ortodoxo (predominante no leste europeu e no Médio Oriente) herdaram esse entendimento e essa veneração. Ao contrário do protestantismo, que se afastou daquilo que considerava os desvios e exageros da tradição católica.
Característica da identidade católica, a veneração a Maria é, no entanto, objecto de debates, divergências, opiniões diferentes – mesmo no interior do catolicismo. Esses diversos graus de adesão e as distintas expressões de linguagem utilizadas manifestam também, quase sempre, modos de ver e de se relacionar com a mãe de Jesus muito díspares.
O Papa Francisco não foge à regra: devoto da figura de Nossa Senhora, ele afirma, desse modo, a sua absoluta identidade católica. Mas, vindo da América Latina, ele dá a essa devoção uma configuração que não coincide completamente com algumas tradições. E que, se acentua a dimensão popular da irmã e companheira que apoia e auxilia os crentes, também afirma em permanência a centralidade de Jesus e do seu evangelho como fundamentos da fé cristã. Maria é, nesta perspectiva, tomada como a primeira seguidora de Jesus e a referência dos crentes.

A desatadora dos nós e a ternura para ajudar

No modo como Francisco se relaciona com a figura de Maria contam, desde logo, os gestos iniciais: na primeira manhã depois de eleito, o novo Papa dirigiu-se à basílica de Santa Maria Maior, em Roma. Ali, Inácio de Loiola, fundador dos jesuítas, a ordem a que pertence Jorge Mario Bergoglio, celebrara a primeira missa de Natal, em 1538. Mas Bergoglio, agora Francisco, não foi lá por causa do fundador da sua ordem, antes para rezar e colocar um ramo de flores. Era a sua forma de saudar a imagem conhecida como Salus Populi Romani, a protectora do povo de Roma.


Nossa Senhora Desatadora dos Nós, 
a imagem preferida do Papa Francisco

A invocação que Bergoglio/Francisco prefere, no entanto, é outra: Nossa Senhora Desatadora dos Nós, uma representação pictórica que ele viu na Igreja de St. Peter am Perlach, em Augsburgo (Alemanha), quando lá viveu, a partir de 1986, para fazer a tese em teologia. Numa pagela que o então padre e, depois, bispo Bergoglio passou a distribuir às pessoas, a imagem de Nossa Senhora Desatadora dos Nós era apresentada como alguém capaz de desfazer “todos os nós do coração, todos os nós da consciência”, todos os nós “da vida pessoal, familiar e profissional, da vida comunitária” que “as mãos bondosas de Maria vão desatando um a um.”

domingo, 13 de agosto de 2017

Fátima, 100 anos, de Maio a Outubro (3) – Segredos, contextos e linguagens

Depois de Maio, podemos voltar a parte do muito que se publicou sobre Fátima e que ajudará a sistematizar informação e elementos para vários debates sobre o fenómeno, que importa agora aprofundar.
Neste mês, trago aqui um texto que publiquei no número de Maio/Junho da revista Brotériaonde procuro analisar o Comentário Teológico sobre o “segredo de Fátima”, publicado pelo então cardeal Joseph Ratzinger, enquanto prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em Junho de 2000. Este é o terceiro trabalho da série e que incluirá mais dois textos, nos dias 13 de Setembro e 13 de Outubro, além de outros dois sobre a figura de Maria, a publicar no próximo dia 15.


FÁTIMA: SEGREDOS, CONTEXTOS E LINGUAGENS

A afirmação do então cardeal Joseph Ratzinger é uma das que marca o Comentário Teológico acerca do “segredo de Fátima”: “A conclusão do «segredo» lembra imagens, que Lúcia pode ter visto em livros de piedade e cujo conteúdo deriva de antigas intuições de fé”, escrevia, em Junho de 2000, o futuro Papa Bento XVI (2005-2013).
A linguagem do segredo e a linguagem relacionada com a experiência católica e crente da época em que se dão os acontecimentos de Fátima, e dos seus desenvolvimentos posteriores, ajudam a entender muito do que foi a construção do fenómeno ao longo deste século. Fátima surge num contexto religioso e político determinado e desenvolve-se, depois, também em relação com a espiritualidade e os acontecimentos políticos das últimas décadas.


Cardeal Joseph Ratzinger, futuro Papa Bento XVI

O texto do Comentário Teológico (que pode ser lido aqui, onde também se pode encontrar o texto da terceira parte do segredo escrita por Lúcia e o relato da conversa do então arcebispo Tarcisio Bertone com a irmã Lúcia e outros documentos relativos ao “segredo”) pode ser lido como um olhar crítico do fenómeno tradicionalmente designado como “aparições” – que, claramente, para Ratzinger, não deve ser designado como tal. O texto aponta para caminhos diferentes dos da linguagem mais tradicional usada em relação a Fátima, embora o faça através de uma proposta positiva, que tenta retirar da mensagem o que de melhor nela se pode ler: a proximidade de Deus através da ideia do coração imaculado e da atenção maternal de Maria de Nazaré; o apelo à conversão permanente ao evangelho de Jesus; a centralidade do objectivo de “crescer sempre mais na fé, na esperança e na caridade”, pois “tudo o mais pretendia apenas levar a isso”; e “a importância da liberdade do homem”, orientando-a “numa direcção positiva” e mobilizando “as forças da mudança em bem”.
Esse olhar positivo, que pretende confirmar a integração da mensagem de Fátima na mensagem evangélica mais autêntica, pode perceber-se, por exemplo, quando o futuro Papa Bento XVI escreve que o “triunfo do Imaculado Coração de Maria”, de que fala o texto do segredo, significa que aquele “Coração aberto a Deus, purificado pela contemplação de Deus, é mais forte que as pistolas ou outras armas de qualquer espécie”. Ou ainda quando refere as palavras-chave da primeira e segunda partes do “segredo” (a frase “salvar as almas”) e a da terceira parte (“o tríplice grito: ‘Penitência, penitência, penitência!’”), o que o leva a afirmar: “Volta-nos ao pensamento o início do Evangelho: ‘Arrependei-vos e acreditai no Evangelho.’ Perceber os sinais do tempo significa compreender a urgência da penitência, da conversão, da fé.”

Paz – presença e ausência

Estranhamente, o Comentário do cardeal Ratzinger deixa de lado a questão da paz, que é outro tema central da mensagem e da prática pastoral de Fátima, bem como da adesão das populações. Aliás, essa ideia vem sendo sublinhada desde há décadas pelos responsáveis do santuário, por estudiosos do fenómeno, bispos e papas.
Quando veio a Fátima, em 1967, o Papa Paulo VI anunciou a visita dizendo que viria, como peregrino, para invocar a intercessão da mãe de Jesus “a favor da paz da Igreja e do mundo”. E, na homilia que pronunciou no santuário, sublinhava esse objectivo: “O mundo, a paz do mundo”, bem como o desejo de “paz interior” para a Igreja. Em 2010, o próprio Bento XVI sublinharia, na sua homilia em Fátima, que os videntes “fizeram da sua vida uma doação a Deus e uma partilha com os outros por amor de Deus” e que “só com este amor de fraternidade e partilha construiremos a civilização do Amor e da Paz”.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Pedofilia: Francisco ainda precisa de fazer mudanças na Igreja

Kieran Tapsell, advogado público aposentado e autor de “Potiphar’s Wife: The Vatican’s Secret and Child Sexual Abuse”.
[Artigo publicado no National Catholic Reporter, de 28-07-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa e foi publicada na Newsletter o Instituto Humanitas da Unisinos].

«O editorial do National Catholic Reporter, intitulado “A Igreja mudou em relação aos abusos sexuais, mas não o suficiente”, corretamente identifica a cultura clerical essencialmente masculina como um fator fundamental nos escândalos de abuso sexual, mas erra ao não apontar para o fracasso do Papa Francisco em mudar partes doDireito Canônico que incorporam tal cultura.
O Papa Francisco pode se ver impedido pela teologia no tocante a ter mulheres ordenadas ao sacerdócio. Mas os Cânones 478 e 1420 exigem que os vigários gerais, vigários episcopais e judiciais também sejam sacerdotes. Estes, portanto, não podem ser mulheres, exceto com uma autorização concedida por homens em Roma. Uma regra assim pode ser alterada com o simples uso de uma caneta.
Um exemplo mais grave do clericalismo é a imposição, no Direito Canônico, do segredo pontifício contra todas as acusações e informações relativas a abusos sexuais infantis cometidos pelo clero. A única exceção que permitiria reportar-se às autoridades civis foi dada aos EUA em 2002 e ao resto do mundo em 2010, e limitou-se a valer onde existem leis civis aplicáveis que exigem que este tipo de informação seja repassado. Pouquíssimas jurisdições têm leis abrangentes nesse sentido. Nos Estados Unidos, somente a metade dos estados obriga que o clero informe os casos à polícia.
As tentativas de Francisco em responsabilizar os bispos significaram muito pouco, pois a capacidade dele de assim fazer está limitada pelo Código de Direito Canônico. Os três bispos que ele forçou renunciar – Dom John Nienstedt e seu bispo auxiliar, Dom Lee Piché, de St. Paul-Minneapolis, e Dom Robert Finn, de Kansas City-St. Joseph, no estado do Missouri – violavam o Direito Canônico em vigor nos EUA desde 2002, o qual exigia que obedecessem às leis civis de informar à polícia as acusações de abuso.
Desde 1996, os bispos irlandeses, ingleses, australianos e americanos quiseram que a obrigação de relatar às autoridades civis fosse regra no Direito Canônico, independentemente de haver, ou não, a obrigação segundo o direito civil local. A Santa Sé tem reiteradamente rejeitado a ideia.
Em 2012, a Conferência dos Bispos Católicos da Austrália enviou ao Vaticano para aprovação o seu protocolo contra abusos sexuais, intitulado “Toward Healing 2010”. O texto exigia que fosse obrigatório relatar às autoridades civis sempre, em todos os casos. Em 22-02-2013, a Congregação para a Doutrina da Fé informou a conferência que tal obrigação poderia se aplicar a todos os demais na Igreja, exceto aos clérigos.
Em 2014, a Conferência Episcopal Italiana (da qual Francisco é o bispo mais importante, embora não seja o seu presidente) anunciou que seus bispos não iriam relatar à polícia as acusações de abuso sexual clerical porque as leis italianas não os exigiam – postura coerente com o Direito Canônico. Em 2015, a Conferência dos Bispos da Polônia fez o mesmo anúncio.
Em 2014, duas comissões das Nações Unidas – sobre os direitos da criança e contra a tortura – solicitaram a Francisco que abolisse o segredo pontifício para permitir que se relatassem às autoridades civis os casos de abuso sexual infantil sempre que ocorrerem e que tornasse esta prática um elemento obrigatório segundo o Direito Canônico. Não era outra coisa senão um pedido para que a Igreja voltasse à prática centenária que existia antes de 1917. Em setembro de 2014, o papa recusou o pedido, com a desculpa extraordinária segundo a qual tornar obrigatória a prática de relatar casos de abuso dentro do Direito Canônico iria interferir na soberania dos Estados independentes. O Direito Canônico interfere em tal soberania tanto quanto interferem as regras do futebol.
Em 15-02-2016, o Cardeal Sean O’Malley, da Arquidiocese de Boston, presidente da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores, afirmou que os bispos têm uma obrigação ética e moral de relatar às autoridades civis todas as acusações de abuso sexual clerical, independentemente se há ou não leis civis nesse sentido. A sua afirmação era um bom indicativo de que o Direito Canônico seria alterado. Em 06-12-2016, a mesma comissão publicou as suas orientações para as conferências episcopais nacionais. A declaração de O’Malley não foi incluída.
Francisco vem dizendo que ele e seu antecessor, o Papa Bento, adotaram uma política de “tolerância zero” em casos de pedofilia. No contexto profissional, tolerância zero significa um desligamento permanente. No entanto, os números que Francisco apresentou às Nações Unidas em 2014 mostravam que menos de 25% de todos os padres acusados de pedofilia foram desligados da Igreja. Temos aqui uma tolerância de 75%, não de zero por cento.
Em 2017, Dom Mark Coleridge, de Brisbane, na Austrália, contou a uma Comissão Real que o Vaticano concordara em desligar apenas um dos 6 padres condenados por crimes sexuais. Isto representa uma tolerância de 83%.
Pode-se expressar melhor o desempenho de Francisco pegando o exemplo de Marie Collins, que renunciou da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores em 1º de março deste ano:

Quando aceitei a nomeação para a Comissão em 2014, disse publicamente que se achasse que o que ocorria atrás de portas fechadas estivesse em conflito com o que estava sendo dito ao público, eu não permaneceria. Esse momento chegou. Sinto que não tenho escolha senão renunciar caso queira manter a minha integridade”

sexta-feira, 28 de julho de 2017

O sétimo filho da leprosa e o poder como serviço


O padre Anastácio Jorge em Moçambique

“Para mim não há poder, há serviço”, repete o padre Anastácio Jorge, membro da Sociedade Missionária da Boa Nova, a trabalhar em Moçambique há 30 anos. Nascido no hospital Rovisco Pais (Tocha), em 1959, como o sétimo filho de mãe leprosa, Anastácio cresceu vendo a sua mãe através de um vidro, como numa prisão, sem que ela pudesse tocar-lhe.  
“O poder mata e corrompe”, insiste, nesta entrevista dada há dias ao jornalista Manuel Vilas Boas, da TSF. E por isso o missionário português avisa que a Igreja “não pode manter um sistema de pobreza com a promoção” de uma caridade limitada ao socorro, que não liberta nem dá dignidade ou rosto às pessoas. “Esta coisa de as pessoas todos os dias baterem à porta para pedir pão, não é bom...”, diz. E a igreja deveria estar “ao serviço da liberdade e das escolhas”.
A sua paixão, acrescenta, é anunciar Jesus, ouvir coisas novas, reaprender e ouvir os outros. Inquieto enquanto jovem, integrou a União de Estudantes Comunistas (UEC), após o 25 de Abril de 1974 e o tempo de esperança que a Revolução significou. Depois, desiludido, viveu uma experiência mística que o levou a entrar, com 21 anos, no Seminário das Missões de Valadares (Gaia). Depois do Porto e Roma, seguiu para Moçambique, onde foi ordenado padre em 1992.
Hoje, admirador confesso da acção do Papa Francisco, é pároco de Malavane e do Aeroporto, onde tem desenvolvido obras de promoção social, incluindo dirigidas a leprosos, e apoiado iniciativas de microcrédito, que considera uma “escola de valores”.
A entrevista pode ser ouvida aqui.