sábado, 17 de fevereiro de 2018

90 anos de Pedro Casaldáliga: o bispo da “absurda” Esperança



Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix de Araguaia, Mato Grosso, Brasil
(foto reproduzida daqui)

Há pouco mais de 46 anos, o convite para a celebração de ordenação de bispo de Pedro Casaldáliga, então missionário dos padres claretianos no Brasil, dizia, com estas palavras em forma de poema:
Tua mitra
será um chapéu de palha sertanejo;
o sol e o luar; a chuva e o sereno;
o olhar dos pobres com quem caminhas
e o olhar glorioso de Cristo, o Senhor.
Teu báculo
será a verdade do Evangelho
e a confiança do teu povo em ti.
Teu anel
será a fidelidade à Nova Aliança
do Deus Libertador
e a fidelidade ao povo desta terra.
Não terás outro escudo
que a força da esperança
e a liberdade dos filhos de Deus
nem usarás outras luvas que
o serviço do Amor.
Ontem, 16 de Fevereiro de 2018, o bispo emérito de São Félix do Araguaia (Mato Grosso, no centro do Brasil, a sul da região amazónica) completou 90 anos de vida e uma celebração eucarística assinalou o facto. Uma vida em grande parte dedicada a fazer daqueles votos de consagração um horizonte de acção evangélica, através da defesa e da experiência de um cristianismo servo e pobre, dedicado à protecção dos mais pobres e desfavorecidos. Uma vida que levou a sério a promessa-convite da sua ordenação episcopal, tendo-se sempre recusado a usar símbolos que, na sua perspectiva, falavam mais do poder do que do serviço.
Não foi fácil a vida de Pedro Casaldáliga. Nascido Pere Casaldàliga i Pla, em Balsareny, na província catalã de Barcelona (Espanha), a 16 de Fevereiro de 1928 e emigrado para o Brasil, em 1968, como missionário da sua congregação, os padres claretianos, viria a sofrer várias ameaças de morte (numa das ocasiões, teve mesmo de se esconder, como Fernando Alves evocava na TSF em Dezembro de 2012), esteve várias vezes para ser expulso do Brasil durante a ditadura militar, sofreu incompreensões de algumas estruturas eclesiásticas, teve posições que muitas pessoas não entenderam. Mesmo assim, persistiu na sua forma de estar. 

No Brasil, com o Pacto das Catacumbas
Em 1968, chegado ao Brasil, o padre Casaldáliga encontrou no Mato Grosso uma região marcada pela imensa miséria e analfabetismo, pelo poder dos grandes latifundiários e por assassinatos frequentes dos líderes e das populações indígenas ou rurais.
Nomeado administrador apostólico de São Félix em 1970 e bispo no ano seguinte, recebeu a ordenação episcopal em Outubro de 1971. Na sua actividade episcopal, aderiu ao Pacto das Catacumbas, um documento assinado por vários bispos que tinham participado no Concílio Vaticano II, e que se comprometiam a viver de forma despojada e servindo o anúncio do Evangelho entre os mais pobres. O Pacto é uma das etapas fundamentais que levará ao aparecimento de líderes como o Papa Francisco.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Integrar a fragilidade, refazer a vida inteira




O padre António Pedro em 2015, no Hospital de Santa Maria (Lisboa); 
actualmente, exerce funções de capelão hospitalar no Hospital de Santa Marta 
e Maternidade Alfredo da Costa, também em Lisboa
 
A criadora da noção de cuidados paliativos dizia que “quando já não há nada a fazer, está tudo por fazer”. O padre António Pedro Monteiro, 31 anos, assistente religioso no maior hospital do país, diz que, perante o sofrimento, importa construir um caminho que integre a fragilidade e devolva a saúde pelo perdão de si mesmo e dos outros. E o padre Augusto Cima, 78 anos, manifesta-se muito crítico na falta de profissionalismo no acompanhamento dos doentes feito pelas estruturas católicas (o Dia Mundial do Doente foi assinalado Domingo passado) – ver no final ligação para uma entrevista na TSF.

Quando chega junto de uma das camas, o padre António Pedro ajoelha. Vai conversar com uma doente que chamara alguém da capelania do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Durante dois ou três minutos permanece ajoelhado, pouco mais do que escutando, entre silêncios.
O pouco que vai dizendo aponta para o presente e o futuro, para a alta que estará próxima, depois de oito meses de internamento, tratamentos e outros sofrimentos. A cena inverte o quadro habitual. “Importa mais escutar Deus que está no outro do que catequizar sobre Deus ou catequizar o próprio Deus”, responderá, quando perguntado sobre tal gesto.
Nascido a 12 de Setembro de 1983, em Vizela (diocese de Braga), António Pedro Monteiro é padre do Sagrado Coração de Jesus (dehoniano) desde 26 de Setembro de 2010. Faz parte da equipa de três padres e um diácono que, diariamente, presta serviço de assistência religiosa, em nome da Igreja Católica, no maior hospital do país.
Uma semana antes de ter sido desafiado a fazer esse trabalho, em 2012, estava António Pedro na Madeira. Contactara todas as escolas da ilha, trabalhava num seminário, numa escola de enfermagem e num lar de idosos. Ao fim de dois anos, sentia que começava a “coser várias pontas”. Foi quando o superior provincial lhe confidenciou a possibilidade de um novo projecto pastoral: o patriarca D. José Policarpo pedira um capelão em Santa Maria, mas não sabia como responder. Nesse momento, nem um nem outro imaginavam que, três semanas depois, o diálogo ganharia um sujeito com António Pedro.

O outro como lugar teológico

Aqui está agora, de bata branca, acorrendo a quem chama – chegam à capelania uma média de 60 pedidos de assistência espiritual por semana. “No hospital, temos de ser não só antenas, mas patenas”, foi o que aprendeu na formação. “Se olhamos a pessoa doente como coitadinha e carente do que tenho para dizer-lhe, encaixamos no modelo anterior de assistência, que se propunha dar sacramentos e levar uma catequese preparada. Se trato a pessoa com dignidade e singularidade, e tento ver nela o rosto de Jesus, como propõe o texto de Mateus 25, então aprendemos que Deus está nessa fragilidade.” Mais do que ir junto dessa pessoa para falar de Deus, acrescenta, importa ter presente que se vai ter com o próprio Deus de Jesus: “A mim o fizestes.”

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Músicas que falam com Deus (38) - As Rotas da Escravatura, de Jordi Savall

É uma voz rouca e profundamente africana aquela que nos traz a voz do padre António Vieira: “Os Senhores poucos, os Escravos muitos; os Senhores rompendo galas, os Escravos despidos, e nus; os Senhores banqueteando, os Escravos perecendo à fome; os Senhores nadando em ouro, e prata, os Escravos carregados de ferros; (...) Estes homens não são filhos do mesmo Adão, e da mesma Eva? Estas almas não foram resgatadas com o sangue do mesmo Cristo?” 
Este excerto do XXVII Sermão do Rosário – Maria Rosa Mística é um dos textos que Jordi Savall nos traz nest’As Rotas da Escravatura. O itinerário da obra começa com a evocação da primeira expedição portuguesa para capturar escravos na Guiné, em 1444, e termina 444 anos depois, em 1888, data da abolição da escravatura no Brasil. O percurso musical traz-nos à memória o pico de uma tragédia na qual Portugal tem um papel bem triste, mas que já existira antes e ainda perdura nos nossos dias, mesmo que formalmente extinta. 
O programa deste duplo disco, livro e DVD (cujo espectáculo passou por Lisboa em Abril do ano passado) é um diálogo intenso entre músicas do Mali, México, Colômbia e Brasil. São canções que falam da religiosidade africana, dos sofrimentos e lamentos, dos trabalhos e das penas, a par das pequenas alegrias, dos amores e rituais quotidianos, quase sempre marcados pela música e pela dança – únicos espaços de liberdade que ninguém podia tirar aos escravos, como escreve Jordi Savall. 
Apesar de o diálogo intercultural e inter-religioso através da música ser desde há muito uma das marcas do humanismo savalliano, é a primeira vez que o maestro e compositor catalão penetra na África subsariana. E o resultado é verdadeiramente espantoso, com as vozes e os instrumentos dos três continentes e no qual se destacam as vozes de Kassé Mady Diabaté ou Maria Juliana Linhares ou a deliciosa kora de Ballaké Sissoko (mas é injusto deixar de lado os restantes  músicos, cantores e o recitador). Savall devolve-nos a memória dos cerca de 25 milhões de africanos sujeitos a este tráfico infame e que não podem ser esquecidos (um número equivalente continua, ainda hoje, sujeito a condições de escravatura). A beleza e profundidade desta obra a isso nos obrigam.


Les Routes de l’Esclavage
Intérpretes: K. M. Diabaté, I. Garcia, M. J. Linhares, B. Sangaré, B. Sissoko, La Capella Reial de Catalunya, Hespèrion XXI, 3MA e Tembembe Ensamble Continuo; dir. Jordi Savall
Edição: Alia Vox
(mais informações: vgm@plurimega.com)

(Texto publicado na revista Além-Mar, em Abril de 2017) 

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Acesso dos católicos divorciados recasados aos sacramentos – um debate na praça pública

(Foto © Vipweddings, reproduzida daqui)

O tema do acesso aos sacramentos por parte de católicos divorciados que voltaram a casar tem provocado algum debate nos média nacionais. Aqui se publicam um artigo do jornalista Joaquim Franco e as ligações para alguns textos surgidos nos últimos dias (indicadas no final do artigo).

Em consciência – reflexão alternativa sobre ​a nota do patriarca

Texto de Joaquim Franco
(co-autor do livro Papa Francisco A Revolução Imparável)

Agora, que a poeira assentou, podemos e devemos reanalisar as (des)orientações. O cardeal-patriarca de Lisboa podia ter feito um documento sobre o acolhimento condicional e condicionado dos divorciados recasados sem a polémica referência à “abstinência sexual”? Podia. Mas fê-lo, à semelhança do que fizeram outros bispos, embora com um contexto que faz a diferença.

1. As orientações d​o bispo de​ Lisboa refletem também o ​seu ​pensamento. Antes do sínodo da família, entrevistado na SIC, o cardeal-patriarca de Lisboa disse que não via como seria possível os divorciados recasados voltarem aos sacramentos. Pois, se o sacramento do matrimónio é indissolúvel, ​assim se ​mantém, e a situação de recasados coloca-os em violação da integridade sacramental na Igreja.
Depois do sínodo, conhecida já a exortação Amoris Laetitia (AL), em que Francisco abre a porta do discernimento como reentrada para os sacramentos, Manuel Clemente diria noutra entrevista à SIC que aguardava que o Papa esclarecesse o que queria dizer. Conferências episcopais e dioceses começavam a dar as orientações a partir da exortação do Papa, mas Lisboa ainda precisava de esclarecimentos, que acabariam por ser dados pela interpretação e orientações dos bispos argentinos, legitimadas explicitamente pelo Papa, nas quais o patriarca diz que se baseia.
As orientações de Lisboa não deixam de ir ao encontro da abertura apontada na Amoris Laetitia – o patriarca está também a ser criticado pela ala mais conservadora e anti-Amoris, o que não deixa de ser irónico –, e relembram a argumentação de João Paulo II na exortação Familiaris Consortio, de 1981.
Francisco recorda as anteriores propostas de João Paulo II para dar força doutrinária à nova abordagem que propõe na AL. Seria necessário repeti-las no documento de Lisboa nos termos em que foram feitas? As orientações do patriarca refletem as possibilidades de readmissão de católicos divorciados recasados aos sacramentos, mas por via de um processo que se afigura aparentemente mais rigoroso. Manuel Clemente faz questão de sublinhar o “caráter restrito (em certos casos) e condicional (poderia)” destas situações...

2. Quantos católicos divorciados recasados viverão atormentados e com peso de consciência? Muitos são já acompanhados por um padre ou outra pessoa da comunidade referenciada para tal, e que, de forma discreta, sem grandes alaridos, praticam o princípio da misericórdia. 

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Natan Peres, novo rabi de Lisboa, quer uma estrutura judaica mais forte

      


Natan Peres (foto Monique Kooijmans, reproduzida daqui)

     “A comunidade [judaica] em Lisboa tem um legado muito importante, tem uma história muito rica, tem tradições. Mas temos muito para criar em relação à infraestrutura judaica, em relação à disponibilidade de alimentos ‘kasher’, ao ensino e a educação judaica. A ideia é criar uma estrutura judaica mais forte em Lisboa, recolocar o judaísmo português no mapa do judaísmo mundial”, diz o novo rabi da Comunidade Judaica de Lisboa, Natan Peres.
     Nascido no Brasil há 44 anos, formado em Nova Iorque e Jerusalém como rabi, Peres chegou a Lisboa para ser o novo responsável religioso da sinagoga, substituindo o rabi Eliezer di Martino. 
     Em entrevista à Renascença, Natan Peres recorda o facto de, durante séculos, os judeus terem tido de fugir dos lugares onde viviam, o que os torna particularmente sensíveis à questão dos refugiados: “O povo judeu encontrou-se várias vezes, ao longo da história, numa posição de refugiados. Se há algum povo que pode compreender a situação dos refugiados e o quão difícil isso é, somos nós”, diz. “É nosso dever” ajudar os refugiados, acrescenta, e a Europa “ainda está a aprender a lidar com este influxo, uma realidade nova, em relação ao número de pessoas”. 
     O novo rabi também fala sobre a recente declaração dos EUA no sentido de reconhecer Jerusalém como a capital do Estado de Israel: “Estas questões políticas de vez em quando influenciam-nos a questionar coisas que não são questionáveis. A nossa ligação a Jerusalém é uma coisa que não se deve questionar. Agora, ser ou não ser a capital de um Estado judeu, é um departamento diferente. Cabe aos órgãos políticos resolver a questão do estatuto de Jerusalém.” 
     Em dia de Shabath judaico, um texto mais completo pode ser lido aqui.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Jornalismo e religião - a propósito da manchete do Público

Comentário


     A notícia da nota do patriarca, referida na publicação anterior, foi a manchete do Público de hoje, mas com um título forçado e que desvaloriza o texto rigoroso que está publicado no seu interior. 
     Ou seja: não se pode dizer “Igreja aconselha abstinência sexual aos católicos recasados”, como se lê na manchete do jornal (e onde se percebem mãos diferentes das da autora do texto, Natália Faria). Tão “Igreja” é a nota do patriarca como a carta pastoral do arcebispo de Braga divulgada há duas semanas; cada bispo, conforme o Papa diz na Amoris Laetitia, deve dispor as orientações para a sua diocese; por isso, não há, no documento de Lisboa, qualquer orientação para o conjunto da “Igreja”, como diz o título. A nota de D. Manuel Clemente destina-se apenas aos crentes da sua diocese, enquanto a carta pastoral de Braga também não atinge mais do que os católicos da diocese minhota. Valem o mesmo.
     A ideia de que o patriarca é o “chefe” da Igreja em Portugal, que erradamente persiste no senso comum, tem aqui uma nova manifestação. Não: o patriarca é “apenas” o bispo dos católicos de Lisboa. Neste momento, o actual patriarca é também o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, que é tão só um organismo de consulta mútua e cooperação entre os diferentes bispos do país. E apenas quando alguma decisão é tomada em conjunto por todos os bispos da CEP é que ela obriga todas as dioceses e todos os bispos.
     Para que melhor se perceba, as decisões da Câmara de Lisboa dizem respeito apenas aos munícipes de Lisboa; e não é pelo facto de Lisboa ser a capital do país ou de, neste momento, o executivo municipal ter a maioria do mesmo partido que está no Governo do país, que as decisões da Câmara de Lisboa passam a ter carácter nacional. A responsabilidade social do jornalismo passa pelo rigor da informação. Mesmo no que à religião diz respeito.

Dois caminhos para a Amoris Laetitia em Portugal

 (foto reproduzida daqui)

Estão consagrados dois caminhos, entre as dioceses católicas portuguesas, para a aplicação da Amoris Laetitia (AL), no que respeita às orientações para a integração comunitária e sacramental dos crentes divorciados que voltaram a casar. Depois da publicação, há duas semanas, da carta Construir a Casa sobre a Rocha, do arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga
(que rapidamente fez polémica nos Estados Unidos, certamente induzida por portugueses), foi agora a vez de o cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, publicar as orientações para a diocese de Lisboa sobre o mesmo tema.
Numa nota com data de anteontem, terça, dia 6, o patriarca começa por referir que, na Amoris Laetitia, o Papa fornece “o quadro geral da compreensão cristã do matrimónio e da família e oportunas indicações sobre a respetiva formação e acompanhamento”. No capítulo VIII da exortação – “Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade” –, acrescenta a nota, Francisco “não esquece as situações de fragilidade, especialmente as assim chamadas ‘irregulares’, em que ao matrimónio sucedeu a rutura e um casamento civil”. Estas situações, diz ainda o patriarca de Lisboa citando o número 300 da AL, também “deverão ser acompanhadas”: “Os sacerdotes têm o dever de acompanhar as pessoas interessadas pelo caminho do discernimento segundo a doutrina da Igreja e as orientações do bispo.” 
O caminho proposto pelo patriarca diverge do de Braga (entretanto já seguido pelas dioceses de Aveiro e Viseu), precisamente e sobretudo nesta matéria: na diocese minhota, o arcebispo coloca o acento no casal e num processo de discernimento que este deve fazer. Um processo do qual o mínimo que se pode dizer é que se trata de um caminho exigente para quem decide nele entrar, pelo menos na forma como é apresentado (poderia mesmo afirmar-se que, se um caminho do género fosse seguido antes da ordenação de padres, alguns ficariam pelo caminho...).
Já em Lisboa, a responsabilidade maior é colocada no confessor ou director espiritual. Enquanto em Braga se admite que o processo pode levar o casal (com o acompanhamento de um padre ou director espiritual) a decidir-se por regressar aos sacramentos, em Lisboa acentua-se o carácter muito excepcional dessa opção e acentua-se a proposta de abstinência sexual. Em ambos os casos, sublinha-se a doutrina católica tradicional do matrimónio indissolúvel, mas admitem-se caminhos diferentes para resolver os problemas de quem acabou com o casamento desfeito. 
Pretendendo basear a sua nota em três documentos – a Amoris Laetitia, a correspondência entre os bispos da região de Buenos Aires e o Papa Francisco e as indicações dadas aos padres da diocese do Papa (Roma) pelo seu cardeal-vigário – e sugerindo a leitura desses textos na íntegra, D. Manuel Clemente acentua aquilo que, no seu entender, devem ser as “as necessárias condições de humildade, privacidade, amor à Igreja e à sua doutrina, na busca da vontade de Deus e no desejo de chegar a uma resposta mais perfeita à mesma”. (AL, 300).
Sempre citando o documento do Papa, o patriarca acrescenta que a consciência formada “pode reconhecer não só que uma situação não corresponde objetivamente à proposta geral do Evangelho, mas reconhecer também, com sinceridade e honestidade, aquilo que, por agora, é a resposta generosa que se pode oferecer a Deus e descobrir com certa segurança moral que esta é a doação que o próprio Deus está a pedir no meio da complexidade concreta dos limites, embora não seja ainda plenamente o ideal objetivo.”

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

O Papa Francisco e a usura que mata



(foto reproduzida daqui)

No JN de segunda-feira passada, Fernando Calado Rodrigues escreveu sobre o Papa e a usura, sugerindo que as instituições católicas de solidariedade promovam, além da luta contra a pobreza, também a luta contra a usura e o apoio às vítimas dessa prática:

Pedir dinheiro emprestado e pagar juros pelo empréstimo passou a ser algo normal e deixou de ser considerado usura. Ficou reservada esta classificação para empréstimos ilegais com juros altíssimos. No entanto, por vezes, algumas condições de crédito estão no limiar da agiotagem, tal como certas comissões e taxas que os bancos estão continuamente a introduzir e a ampliar.
(O texto pode ser lido aqui na íntegra)

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Um sucesso, uma Igreja piramidal e o crime da pedofilia


A viagem do Papa ao Chile (depois seguida de uma visita ao Peru) continua a motivar leituras diversas. Inês Batalha Mendes, portuguesa que reside e trabalha em Santiago do Chile como analista de risco, escreveu sobre o tema numa crónica da Visão. E considera que, numa determinada perspectiva, a visita poderia ser considerada um sucesso:

Dias antes do início da visita papal, o presidente da Câmara dos Deputados, Fidel Espinoza, propôs adiar a discussão do projeto de lei sobre identidade de género por considerar que o mesmo era “de alta sensibilidade” para a Igreja. Tal como há várias leituras da realidade, também é certo que existem várias igrejas dentro da igreja. Suponho que o senhor Espinoza pretendia com isto não ofender aquela parte da Igreja e da sociedade mais preocupadas com as batalhas contra o aborto, os contracetivos, a identidade de género, o casamento homossexual do que com as questões de justiça social que têm sido uma preocupação constante deste papado. A agenda do Papa Francisco no Chile foi coerente com essa visão. No decurso da visita abordou temas de exclusão social (visitou uma prisão de mulheres), da importância de estender pontes (visitou a Araucanía e abordou o conflito mapuche), falou de acolher o outro e da dignidade humana (visitou o norte do país onde a crise migratória é mais visível). Temas cuja discussão é necessária e atual no Chile. Só por isso a visita deveria ser considerada um sucesso!
(o texto pode ser lido aqui na íntegra)

No DN de sexta-feira, Anselmo Borges regressa também ao assunto, para escrever:

Desta viagem, há muitas conclusões a tirar. Duas principais: contra uma Igreja piramidal e vertical, exige-se uma Igreja cada vez mais horizontal; depois, tolerância zero para a pedofilia, mas é urgente perceber que a pedofilia não é só um pecado, é também um crime e impõe-se agir em consequência.
(texto disponível aqui na íntegra; acerca da viagem, já aqui tinham sido publicados outros comentários e análises)


quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Celibato: um caso no Funchal e um debate no catolicismo




A igreja paroquial de Nossa Senhora do Monte, no Funchal 
(foto reproduzida daqui)


O padre do Funchal Giselo Andrade, que recentemente assumiu a paternidade de uma criança, foi retirado no final da semana passada do cargo de pároco do Monte (paróquia na periferia urbana da capital madeirense) e nomeado como responsável do Secretariado Diocesano das Comunicações Sociais e do Jornal da Madeira, título regional que recentemente voltou à posse da diocese, como se pode ler aqui com mais pormenor.
De acordo com uma nota da secretaria episcopal da diocese, o pároco do Monte manifestou, com o seu gesto de assumir a paternidade, o seu compromisso em “assumir todas as responsabilidades inerentes à situação criada, um sentido de responsabilidade que muita gente apreciou, sem que, no entanto, perante o facto, se deixassem de reconhecer, também, os seus aspectos negativos” – tendo em conta que “ele próprio manifestou o desejo de continuar a exercer o ministério sacerdotal, nas condições exigidas pela Igreja”, ou seja, voltando a exercer o celibato.
A nota (que pode ser lida aqui na íntegra) esclarece ainda que após “diálogos com o próprio sacerdote, ouvidas algumas instâncias da Igreja e percepcionando um sentido eclesial comum, por parte de sacerdotes, consagrados e leigos, entendeu-se que constitui maior bem para o padre Giselo Andrade e para a Igreja diocesana, dispensá-lo de pároco do Monte, podendo continuar a exercer o ministério pastoral, através de algumas actividades que lhe estavam já confiadas, na área das comunicações, e outras que eventualmente lhe sejam atribuídas.”
A questão do celibato eclesiástico tem estado na ordem do dia do debate público, não só por situações como esta (aqui recordada com mais detalhe), mas também pelos casos de abusos sexual de membros do clero sobre menores. Celibato e pedofilia não estão directamente relacionadas, diz o psicanalista João Seabra Dinis considera, nem a questão dos abusos está relacionada desde logo com o voto de castidade. No entanto, Seabra Dinis considera que a Igreja Católica deve reflectir profundamente o tema, para perceber o que deve fazer no futuro, como adianta nesta reportagem do Expresso Diário sobre o assunto, publicada há dias.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Timothy Radcliffe: “Escutar, na Igreja, aqueles que têm opiniões diferentes”



Timothy Radcliffe (foto reproduzida daqui)

Muitas vezes, infelizmente, a Igreja mostrou ter medo de “escutar aqueles que têm visões diferentes” mas, no coração do cristianismo, “está o prazer da diferença”: “A verdade de Jesus é retratada em quatro Evangelhos. A Bíblia abraça a diferença entre Antigo e Novo Testamento. Jesus, a maior de todas: entre Deus e a humanidade. A Igreja só será aceita como mestra se estivermos dispostos a aprender com quem tem sabedoria ou verdade para compartilhar.”
As afirmações são do biblista, teólogo e antigo geral da Ordem dos Dominicanos, frei Timothy Radcliffe, que acrescenta: “A partir do século XVI, a Europa se caracterizou por uma crescente cultura do controle. Vemos isso na evolução do Estado moderno, que supervisiona todos os aspectos das nossas vidas. A Igreja foi contagiada por isso e contribuiu com essa cultura. O Papa Francisco está tentando descentralizar. Isso requer abrir mão do controle. Mas crer no Espírito Santo é sempre um abrir mão do controle, porque não sabemos antecipadamente aonde seremos levados. Pode assustar, mas também é empolgante!”
Timothy Radcliffe afirma ainda que é preciso que cada um se sinta “em casa, na Igreja, independentemente do tipo de relação” com que esteja envolvido: “Jesus comeu e bebeu com todos. Mas uma boa casa também é desafiadora. Convida você a se tornar mais virtuoso, mais coerente, mais comprometido, mais honesto. Ao acolher as pessoas, sempre fruto de histórias complexas, partimos de onde elas estão e de quem elas são. Em vez de ver os divorciados em segunda união como fracassados, poderíamos considerá-los como corajosos que não renunciam ao desejo de um compromisso para sempre. As pessoas gays possuem dons para enriquecer a Igreja e a sociedade. Todos somos peregrinos em busca do caminho para Deus.”
Nesta entrevista, onde também fala do Brexit, dos fundamentalismos e da questão dos migrantes e refugiados, Timothy Radcliffe responde também a uma pergunta sobre a eventual ordenação de mulheres: “O lugar delas na Igreja é uma das maiores questões a serem abordadas. Não é tão central a ordenação, mas sim dar às mulheres tanto autoridade quanto voz. As santas Catarina de Siena, Teresa d’Ávila, Teresa de Lisieux e muitas outras são grandes teólogas. Ora, como essa autoridade pode ser inserida nas estruturas da Igreja? Eu espero que haja mulheres diáconos, de modo que a voz delas seja escutar a partir dos nossos púlpitos. E por que não uma mulher cardeal, como o cardeal Tobin sugeriu?”
A entrevista, publicada inicialmente pelo Corriere della Sera, pode ser lida aqui na sua tradução em português.

(Uma outra entrevista com Radcliffe tinha sido publicada aqui)

A não-violência como proposta para contrariar a violência cada vez mais cedo na vida das crianças



Mahatma Gandhi (foto reproduzida daqui)

Um dia depois de um episódio de violência numa escola da Nazaré, que resultou na morte de um dos envolvidos, assinalou-se esta terça-feira o Dia Internacional da Não Violência e da Paz na Escola, comemorando assim a data em que Mahatma Gandhi, o líder da luta pacífica pela independência da Índia, foi morto no seu país, em 1948.
Na TSF, uma reportagem do jornalista Miguel Midões com sonoplastia de Paulo Jorge Guerreiro, trouxe à antena o caso do Agrupamento Escolar de Oliveira do Bairro, que promoveu um conjunto de iniciativas para assinalar a data.
Um dos dados revelados na reportagem é que a violência acontece cada vez mais cedo na vida das crianças e jovens; por isso se torna importante que se comece pelos mais novos a incutir o sentido da não-violência.
A reportagem pode ser ouvida aqui, onde também estão disponíveis mais informações. 
O tema da não-violência teve, assim, uma oportunidade rara para ser discutido no país, já que uma questão pouco presente no debate público. Um dos últimos contributos para a reflexão sobre o mesmo foi o texto elaborado pelo Metanoia – Movimento Católico de Profissionais, em 2002, na sequência de um processo de reflexão que contou com diversos contributos, incluindo de pessoas de outras religiões.  
O texto, com o título Proposta para uma Cultura da Não-Violência começa por verificar, nos seus dois primeiros parágrafos:
“No início do terceiro milénio a violência continua a ser uma constante na história da humanidade. Muitos são os motivos que alimentam as guerras: diferenças religiosas e/ou culturais, conflitos ideológicos e políticos, reivindicações territoriais, acesso a recursos naturais, a dinâmica própria dos interesses específicos do binómio sistema militar/indústria do armamento, o desejo de poder a todo o custo.
“O fim do bipolarismo e a apregoada nova ordem internacional, ao contrário do que alguns previam, não contribuíram para a resolução pacífica dos conflitos que continuam a provocar milhões de mortos e mutilados um pouco por todo o mundo e a impedir que muitas pessoas vivam em condições mínimas de dignidade. Ruanda, Sudão, Kosovo, Tetchénia, Argélia, Colômbia, Angola, Médio Oriente, Afeganistão, Iraque são algumas regiões do mundo onde o absurdo da guerra se manifestou recentemente e, em alguns casos, continua a manifestar.”
(O documento, em oito pontos, está disponível aqui na íntegra)